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Toró de Pitaco // Negócios do conhecimento // 5 min de leitura

A IA entrega a resposta. O critério ainda é seu.

Beto CanutoBusiness Creative

Imagem ilustrativa gerada com IA
Imagem ilustrativa gerada com IA

Na quinta-feira, 29 de outubro, a Coursera publicou o primeiro balanço completo depois de se juntar à Udemy. Somadas, as duas formam uma das maiores prateleiras de cursos online do mundo: universidades, empresas e quase 100 mil instrutores, segundo o próprio CEO, Greg Hart.

O número de capa parece ótimo: receita de 376,7 milhões de dólares no trimestre, 94% acima do mesmo período do ano passado. Só que essa alta vem quase toda da soma com a Udemy. Na comparação justa, como se as duas já estivessem juntas um ano atrás, a receita caiu cerca de 3%. Na área que vende direto para o aluno, a queda foi de 9%.

O que perdeu força

A carta aos acionistas aponta onde doeu: nas assinaturas de certificados individuais e nas ofertas avulsas da Udemy, o curso comprado um a um. Na conversa com analistas, Hart citou mudanças no tráfego e na forma como as pessoas descobrem conteúdo pela busca, além da confiança do consumidor abalada pela inflação.

Hart disse ainda que algumas habilidades perderam procura, e deu Python como exemplo. Na minha leitura, é o retrato do curso que mais sofre agora: o passo a passo bem definido, que qualquer assistente de IA explica em segundos.

O que subiu

O mesmo balanço traz o outro lado. Os assinantes pagos chegaram a 1,69 milhão, alta de 30%. As matrículas em cursos de inteligência artificial generativa foram de 25 para mais de 40 por minuto. E as matrículas em pensamento crítico mais que dobraram em um ano.

Sobre o medo de as pessoas trocarem curso por chatbot, Hart foi direto: disse que receber uma resposta é diferente de aprender ou de construir uma habilidade que dure.

Juntando as duas pontas, o desenho aparece: perde espaço o conteúdo que entrega resposta pronta, e ganha procura quem ensina a pensar, decidir e julgar. Resposta sobra por aí. Critério para usar a resposta continua difícil de achar.

O que isso diz para quem tem anos de estrada

Muito profissional experiente pensa em transformar o que sabe em produto e começa pelo lugar mais óbvio: listar conteúdos. Módulo um, conceitos. Módulo dois, passo a passo. Módulo três, ferramentas. O resultado costuma ser um curso que poderia ter sido escrito por qualquer colega da área, e que agora compete com uma resposta gratuita, instantânea e educada.

O que a sua experiência tem de único mora em outro lugar. Está no caso difícil que você resolveu de um jeito que o manual não previa. No critério que faz você descartar três caminhos antes de escolher um. Na leitura de contexto que só vem de ter errado e acertado muitas vezes. Isso não cabe numa resposta de chatbot, porque depende de alguém olhando para o problema específico de quem está aprendendo.

Daí saem algumas perguntas para fazer antes de gravar a primeira aula:

  • O que, do que eu ensino, uma IA já responde bem? Esse pedaço pode virar material de apoio, e deixa de ser o centro do produto
  • O meu jeito de decidir tem nome? Um método com nome passa a ser motivo de escolha. Sem nome, ele some dentro da categoria
  • O formato acompanha quem aprende? Turma, grupo, análise de caso, retorno sobre o trabalho do aluno: é aí que o critério passa de uma pessoa para outra

Meu pitaco é que a IA barateou a resposta, e quem vende só resposta vai sentir no caixa, como sentiu uma das maiores prateleiras de cursos do mundo. O que você levou anos para formar é critério, e critério ainda se aprende com gente.

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